Cafh | Informação e Segredo: ilusões de poder

Publicado el 29/03/2026
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Em Cafh, podemos dizer que nossa aspiração máxima é a União Substancial com a Divina Mãe, isto é, com todos e com o todo.
Para realizar isto, precisamos aprender a viver em um mundo que não nos oferece a segurança das certezas e no qual toda verdade é transitória, está fortemente vinculada e circunscrita a contextos e se constrói no encontro com os outros. Estas ideias não são retóricas e têm muitas implicações práticas que não são fáceis de abordar. Porém, o que parece mais óbvio é a necessidade de escutar com o coração e chegar a acordos e consensos, entendendo que mesmo quando há dissenso, é possível co-construir aproximações e compreensões sobre a realidade cotidiana que vivemos.
Neste ambiente de relações humanas, surgem manifestações da experiência com o poder. Entre elas, uma outra polarização que emerge é a que existe entre a informação e o segredo.
Como caminho espiritual, Cafh nasceu como uma ordem secreta. Houve um tempo em que o Voto de Silêncio foi interpretado como não revelar nada que tivesse a ver com Cafh. Cada Távola era um compartimento estanque. Desaconselhava-se falar com integrantes de outras Távolas. Tinha-se praticamente um único interlocutor válido: seu Superior, como eram chamados os Delegados à época.
Em seu contexto histórico, este critério teve, sem dúvida, o seu valor e a sua razão de ser. Mas há um risco de se confundir segredo com confidencialidade. Cada membro de Cafh tem direito à confidencialidade na orientação espiritual. Não podemos tocar a intimidade de ninguém. Devemos respeito à integridade física, mental, emocional e espiritual do ser humano.
O segredo de que tratamos aqui se aplica à organização e aos seus processos. Isto se transforma na enfermidade muito simples que significa repetir erros. Se não enfrentarmos os nossos erros e os abordarmos com coragem, não poderemos aprender.
Se refletirmos sobre qual seria a necessidade do segredo, poderíamos argumentar que ele é uma questão de poder. Isto ainda pode ser acrescido do fato, talvez menos óbvio, de que seja difícil enfrentar os erros quando há uma idealização para sustentar.
O fato é que tanto o segredo quanto a informação entranham poder. Ou seja, a dualidade entre segredo e informação evidenciam nossa relação com o poder. Este é um aspecto tão antigo quanto a humanidade. Está impresso em nosso DNA. Porém, é evidente que para os seres humanos nos tem custado e nos custa muito exercer uma relação equilibrada e saudável com o poder.
Uma maneira de definir poder é a capacidade de influenciar outras pessoas e de fazer com que elas façam determinadas coisas. O poder pode ou não estar vinculado a um cargo ou a uma função.
O certo é que esta qualidade é indispensável para que qualquer grupo humano chegue a um objetivo comum ou possa funcionar de maneira coordenada e sinérgica. A polarização tem posto em evidência nossas relações de poder. O poder não é mal por si mesmo, é só uma energia posta em movimento. Depende dos fins que nos movem, depende da retidão de nossas intenções e de nossa capacidade de perceber, compreender e responder ao entorno. O poder se administra.
Para nos adaptarmos aos novos tempos, necessitamos de uma administração mais distribuída do poder. A complexidade atual nos demanda incorporar mais diversidade, mais pessoas para poder dar resposta aos desafios atuais. A formação de equipes de trabalho, com objetivos claros e com capacidade de se auto-organizar para atingir esses objetivos, tem sido um passo. A possibilidade de se expressar por uma votação sobre as designações das autoridades de cada lugar é outro passo nessa direção.
É evidente que a liderança de hoje não está focada nos líderes carismáticos que tudo sabem, que têm as respostas corretas e que podem ter uma visão do futuro a médio e a longo prazo.
Tudo indica que a nova liderança deve se apoiar mais na construção conjunta do que em seguir as ideias de alguém. Não há dúvidas de que a nova liderança começa com a capacidade de escutar. E continua com a capacidade de trabalhar em equipe e de aprender continuamente.